Sobre ignorar e esquecer

Foto: Anne Biris

Vivo uma vida confortável em Mumbai. Moro em um pequeno apartamento próximo à favela no subúrbio de Bandra Leste. O prédio é de quatro andares e cada um possui doze apartamentos. Famílias inteiras vivem nesses pequenos espaços de dois cômodos. Já eu, moro sozinho. Possuo uma boa cozinha, que praticamente não uso. Possuo água encanada, mas a caixa d’água só enche uma vez por dia. O banheiro é pequeno e não possui ducha. O banho é com balde mesmo. A privada é no chão e a descarga é realizada via água de balde também.

Todos os dias, uma empregada passa por lá, arruma a pequena bagunça e lava as minhas roupas. Dobrando a esquina há um conjunto de lojas amontoadas onde se encontra roupas, alfaiates, celulares e todo o tipo de artigos populares. Em uma delas levo as minhas roupas, onde dois sujeitos passam com afinco camisas e calças por quinze centavos de real a peça.

Os restaurantes da região são bons e baratos. Desfrutá-los é uma forma de me familiarizar com a excelente culinária indiana. Por sete reais, é possível ter um verdadeiro banquete.

Para me locomover, utilizo com frequência os auto-riquixás, que são triciclos preparados para transportar passageiros. Eles estão por toda a cidade e trabalham de forma curiosa. Mesmo vazios nem sempre param para os passageiros e invariavelmente recusam a corrida. Uma viagem longa custa no máximo sessenta rupias, ou dois reais e vinte centavos.

A minha boa vida que seria motivo de comemoração, reflete na verdade um outro lado da moeda. Todas as bonanças a preços módicos que descrevi ainda não são acessíveis para boa parte dos indianos e nosso público-alvo em nossas clínicas. Nosso atendimento custa vinte rupias ou setenta centavos de real e ás vezes recebemos reclamações de pacientes que não podem arcar com o tratamento.

Se os custos são poucos, menor ainda é a renda da esmagadora maioria do país, que é assolado por uma assombrosa desigualdade social. A Índia possui três das dez pessoas mais ricas do mundo.

É impossível viver essa realidade e não pensar no Brasil. Há algumas centenas de metros da minha casa no Sion temos uma favela. Todos nós sabemos dos problemas do nosso país. Bradamos contra a violência, corrupção. E nos esquecemos das mazelas de nossos vizinhos próximos. Discursos reacionários condenam práticas assistencialistas direcionadas àqueles em profunda dificuldade. Todos os dias escolhemos ignorar a realidade de grande parte do nosso Brasil. Ignoramos porque temos outras prioridades, porque nossa ação só pode ser nula e pelo simples fato de poder aproveitar as bênçãos que nos foram concedidas – um vinho que custa o preço de um salário mínimo, um carro que vale o preço de uma casa.

Generalizo a partir do meu próprio comportamento. De quase trintas anos de ignorância consciente. O que acontece é que, ao viver imerso nessa realidade, não é possível ignorar. Não se esquece. Senti extrema tristeza aqui nos meus primeiros dias. Não só pela realidade dos indianos. Mas pela nossa. Pela minha realidade que por muito tempo escolhi ignorar, esquecer.

Não é minha intenção apontar culpados nem cobrar ações práticas. Essas palavras vem do coração e a resposta para o que fazer com isso, é para um mistério ainda a ser desvelado.

8 Comentárioa

  1. valeria monteiro
    Postado em 10/22/2011 às 15:19 | Permalink

    Força ai bacana, estou torcendo muito por voce e te mando orações quase diárias, tenho certeza que sua permanência ai tem um propósito muito nobre e que não é pra qualquer um. Há um trecho de um livro espirita que diz que há espiritos que em encarnações anteriores foram tão maus que a única energia acumulada que eles tiveram serviram de passaporte para regiões de extrema miséria,tamanha sua dívida com a vida. Tá tudo certo. ‘PRA CADA ESFORÇO DISCIPLINADO, MÚLTIPLAS RECOMPENSAS’, bjão. Fica com os Deuses.

  2. Mara
    Postado em 10/22/2011 às 19:24 | Permalink

    Betinho,
    Fantastica suas experiencias,estou sempre torcendo pelo seu sucesso.
    Que Deus abençoe seus caminhos!
    Bjs

  3. beto
    Postado em 10/22/2011 às 22:33 | Permalink

    Que bom que voce coloque textos sucessivamente. Assim podemos comentar com mais assiduidade e, tambem estarmos em contacto; mais proximos.
    As realidades que voce esta constatando e comparando, naturalmente, sao um fato. No entanto, acredito que e muito importante tomar consciencia dessas circunstancias e, ao mesmo tempo, constatar que a nossa capacidade de solucionar problemas globais, individualmente, e muito limintada. Todavia, cada um de nos pode fazer sua parte para fazer esse mundo , cada vez, melhor. Muitos beijos e saudades.

    Beto

  4. GERSON
    Postado em 10/23/2011 às 09:02 | Permalink

    Olá Betinho!!!!!
    Realmente quando se convivi com um ambiente de tanta pobreza gera um sentimento de uma certa culpa. Lójico que cada um pode, dentro do possivel,
    contribuir para um mundo mais justo. Você neste momento, já está dando e muito, sua parte neste complicado processo das desigualdades sociais.
    Na verdade você não tem culpa nenhuma, a culpa é de quem tem o poder de decisão, em politicas públicas e não faz o que deveria ser feito.
    Tudo de bom para você e bola para frente que seu futuro é grande e de muito sucesso. Em abração Gerson

  5. André
    Postado em 10/23/2011 às 18:01 | Permalink

    Betinho, sobre Budismo, o que tem visto por aí?quando li seu texto pensei pogo nesse lado, tenho algumas coisas sobre Buda e me interessado bastante, é impressionante como um tipo de pensamento como o Budismo que é voltado para tirar ou diminuir o sofrimento nas pessoas não esta mais presente na vida das pessoas que vivem no país onde este estilo foi criado!
    abraço!

  6. tati miranda
    Postado em 10/26/2011 às 16:20 | Permalink

    Betinho, sempre trago comigo a frase espírita: a quem muito é dado muito será cobrado! somos viajantes do tempo, numa fase de transição. aproveite a oportunidade para abrir portas à evolução espiritual e mental.A caridade é o dom maior, e quase ninguem se desprende a tanto. Parabéns pela oportunidade!!! bjo

  7. Lud
    Postado em 10/30/2011 às 23:35 | Permalink

    Timtim,

    espero q a realidade dos fatos te ajude a continuar fazendo um servico fantastico pro ser humano. O mundo precisa de pessoas assim e precisa de gente q consegue por as coisas em pratica mesmo sendo sugado pela brutalidade da pobreza e da falta de recursos. Acho q vc so tem a crescer com essa experiencia e tenho certeza q vc esta aproveitando todo o segundo pra fazer algo bom para as pessoas. Estou aqui torcendo pro seu amadurecimento pessoal e espiritual. bjo grde.

  8. Ana
    Postado em 11/06/2011 às 22:08 | Permalink

    Olá moretti!! Amei o texto, uma simplicidade capaz de tocar a alma, fico feliz em ver o quanto você tem aprendido, esse aprendizado é capaz de nos ajudar a ver que no íntimo somos todos iguais, de transformar os nossos pensamentos e quebrar os preconceitos, sem dúvida é um verdadeiro crescimento pessoal. Louvável é esse trabalho, a Bíblia diz: “tratar com bondade o necessitado é honrar a Deus”. Saudades! Bjosss

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