Rotina


Essa é uma viagem bem distinta da primeira que fiz à China. A viagem de 2009 em Mianyang foi uma correria só. Período integral no hospital, seguindo vários acupunturistas diferentes. E ainda tinha que achar tempo para turistar por aí. Foi um mês de fato rico e exaustivo.

Dessa vez é bem diferente. Após um mês aqui, tive que realmente passar por um período de adaptação. Primeiro a casa, depois o estágio, renovação de visto, etc. Tudo isso concomitante ao estudo das técnicas e teorias de Dr Wang. É muita coisa para se lidar em um mês, mas essenciais para o bom andamento dos meses seguintes.

O ritmo é bem mais tranqüilo. A clínica do Dr Wang funciona apenas três vezes por semana, somente na parte da manhã. Seu trabalho também possui um ritmo mais cadenciado. Atende poucos pacientes e sempre dedica bom tempo a todos. Ele ficou satisfeito de saber que ficarei um ano o acompanhando. “Vocês estrangeiros querem aprender tudo em um mês, não tem jeito!” . É verdade, mas o grande problema é que não moramos aqui, por isso corremos para aproveitar o máximo. Cada viagem demanda tempo, planejamento e dinheiro sobrando.

Divido o meu tempo entre as idas à clínica e ao estudo do livro e das aulas do Dr Wang. Gravo todos os casos e ensinamentos em um gravador digital e escuto as gravações no tempo livre. Trabalho exaustivo, mas compensador. Geralmente vou à algum café e passo a tarde envolvido nessas compilações. Entro em meu próprio mundo escutando gravações, lendo, escrevendo e tomando a água suja e cara que os chineses insistem de chamar de café.

Também uso parte do meu tempo para aproveitar Beijing, em especial os hutongs. Faço passeios quase que diários de bicicleta onde me perco pelas ruelas e becos e também idas à grande monumentos, como a Cidade Proibida, praça da Paz Celestial e a torre do Sino. A melhor forma de conhecer Beijing é se perdendo pela cidade, afinal, estar perdido nada mais é do que estar em um lugar completamente novo.

Darei um exemplo: um dia, voltando da clínica do Dr Wang, em viagem que demanda cerca de quarenta minutos de bicicleta, decidi escolher outro caminho para fugir do terceiro anel, avenida que contorna a cidade, extremamente movimentada. O caminho lógico, seria ir em direção sul e depois leste, onde fica minha casa. Peguei uma grande avenida rumo ao sul e passei em frente ao zoológico, à Universidade do Povo e à Biblioteca Nacional. Há de se ter muito cuidados nesses momentos de descoberta. O trânsito de pedestres nas ciclovias é intenso e uma olhadinha pro lado pode causar um acidente. Depois que descobri que minha bicicleta possui uma campainha que serve de buzina, gradualmente passei a utilizá-la mais do que o freio, embora o último seja infinitamente mais eficaz.

Continuei meu trajeto e ainda pensei que iria ser mais rápido do que o caminho habitual. Ledo engano. Encontrei umas avenidas onde não era permitido o trânsito de bicicletas e acabei rumando mais ao sul do que gostaria. Ao seguir para leste, me deparei com a região dos hutongs do lago Hou Hai, que é bem perto de minha casa. E foi aí que me compliquei. Um beco aqui, ruela ali, lugares sem saída. Os hutongs são um verdadeiro labirinto. Nesse momento ainda curtia o passeio, pois o lugar é muito interessante e bonito.

 

Mas eis que de repente, após pegar uma outra ruela que parecia a salvação, vejo uma multidão de turistas chineses caminhando em minha direção. Grupos escolares, excursões do interior, o fato é que de repente me vi no meio do que parecia ser a torcida do Atlético em dia de clássico. Para piorar, carros, pequenos caminhões, riquixás e outros colegas bicicleteiros também enfrentavam o mesmo problema. E adicione à conta, as apertadas ruelas dos hutongs. Não havia saída e o jeito era seguir o fluxo, junto à multidão. Eu, minha bicicleta e mil chineses fazendo compras, pasmos com a beleza e peculiaridades de Beijing. Eu também era alvo de sua atenção, tiravam fotos, sorriam e olhavam com extrema curiosidade. Me senti como se fosse um extraterrestre solto por aí.

Perigo! Chineses em férias!

Depois da confusão, finalmente consegui chegar à uma grande avenida. E aí, para variar, rumei para o lugar errado. Só me dei conta quando cheguei à um parque que não conhecia e que não deveria estar ali. Parei para um chá gelado e perguntei ao vendedor a direção certa. Chineses costumam ser bastante precisos em suas direções. Ele me mandou para o rumo correto e quinze minutos depois, estava em casa. Com quase uma hora e meia a mais do que

o que normalmente gastaria. Mas achei o Zoológico, a universidade, a biblioteca, os lagos e um grande parque.

Bom, se ao se perder muito se encontra, para que o aprendizado ocorra é preciso de um abandono de velhos conceitos adquiridos. Em conversa com Dr Wang sobre sua teoria e seus métodos, perguntei:

– Estou gostando e aprendendo muito com sua teoria e suas técnicas. No entanto ainda tenho dificuldade de, ao programar um tratamento, utilizar seus métodos e abandonar os que já considero eficazes. C

omo posso fazer a transição de um método para o outro?

– É preciso esvaziar sua cabeça para abraçar um novo conhecimento. É natural que você ainda se apegue ao seus conhecimentos prévios. É um processo lento, mas que deve ser feito. Sugiro que, em pacientes distintos com condições similares, utilize os dois métodos e compare os resultados. Lembre-se que esses métodos e essa teoria não são minhas, mas oriundas de uma pesquisa intensa do Nei Jing (clássico de Medicina Interna do Imperador Amarelo). Gostaria ainda, que me relatasse sua experiência com seus tratamentos e o uso desses métodos, para que possamos documentar ainda mais sua utilização.

Depois Dr Wang lembrou que estamos juntos à um mês e me questionou sobre o que havia aprendido. Não citei receitas de bolo. Respondi sobre a forma de raciocínio mais direcionada aos canais, suas atuações sinérgicas com seus pares de níveis de energia e suas considerações sobre a palpação de canais.

Ele pareceu satisfeito com a resposta e respondeu que, dos estudantes brasileiro que teve, eu era o mais determinado em ir a fundo na parte teórica e de fundamento. Fiquei feliz, principalmente pelo fato de que professores chineses não tem o costume de elogiar seus alunos. Ainda sei que falta muito para chegar de fato ao entendimento total de sua teoria, mas é bom sentir estar no caminho certo.
Sobre a minha rotina, espero ter matado um pouco a curiosidade de todos que me pediam posts maiores e mais detalhados. Uma vida pacata de estudo e passeios ciclísticos pode não render grandes histórias, mas me serve muito bem. Tenho tempo para vivenciar a China, o aprendizado e ainda de quebra, ter uma vida saudável e tranquila, perfeito para um estudante.

12 Comentárioa

  1. tati
    Postado em 08/17/2011 às 08:38 | Permalink

    Acabei de passar um cafezinho, aceita Betinho? Ahhh caro amigo, que delicia de experiencias hein? Valeu pelo post! beijo

  2. Silvia
    Postado em 08/17/2011 às 09:09 | Permalink

    Betinho…
    seus posts são incríveis….to muito orgulhosa de ver meu amigo sendo elogiado pelo Dr Wang!!!!
    parabéns!

  3. Gerson
    Postado em 08/17/2011 às 09:10 | Permalink

    Olá Betinho..
    Que vida diferente e fantástica vc esta tendo ai na China. No futuro bem próximo, com certeza, os conhecimnetos adquiridos e vividos serão seu grande
    diferencial. Sucesso para vc. Um abraço Gerson

  4. vinicius
    Postado em 08/17/2011 às 10:00 | Permalink

    Mão boa pra agulhas e canetas, meu caro. Ótimo!

  5. Lud
    Postado em 08/17/2011 às 13:05 | Permalink

    Vc realmente nos deu uma bela trajetoria do seu dia-a-dia ai em Beijing. Eu acho q vc so tem a aprender com o tempo, com as mudancas de pensamento e ambiente, com as pessoas e com suas caminhadas. Valeu pelo post! Deu pra matar um pouquinho da curisidade com certeza! Show de bola, Timtim!

  6. Don Berna
    Postado em 08/17/2011 às 17:09 | Permalink

    Aê Betinho!!! Maravilha!!! Vamo que vamo!!

  7. valeria monteiro
    Postado em 08/17/2011 às 19:12 | Permalink

    ai bacana, vibro com suas vitórias, curta mesmo cada momento, fico daqui saboreando suas conquistas, bjão

  8. Andresa Ventura
    Postado em 08/17/2011 às 21:26 | Permalink

    Estou lendo todos os posts! Muito bom!

  9. tio celso
    Postado em 08/19/2011 às 18:05 | Permalink

    Betinho, A cada dia vc. me surpreende! Como diria um grande amigo meu “estou orgulhoso deste meu sobrinho”, Bjos, tio celso

  10. beto V. sabe qual.
    Postado em 08/20/2011 às 17:59 | Permalink

    Parabens. Texto sensacional. Meus elogios sao mais comedidos, com v. sabe. A sua descricao de como acontece o aprendizado e perfeita. V. fez otima correlacao com a descoberta dos caminhos e surpresas da cidade. Beijo grande

  11. Claudio Ferreira
    Postado em 08/23/2011 às 11:00 | Permalink

    Olá Betinho,
    muito bom os seus posts. Tenho acompanhado com muita atenção as suas aventuras e novos aprendizados.
    Grande abraço.

  12. Saulo
    Postado em 08/23/2011 às 13:14 | Permalink

    Muito legal os Pots! Mantenha nos informados das aventuras! E mostre os lugares bonitos que conheceu. Ouvi dizer que alguns lugares que foram usados na olimíadas estão abandonados. É verdade? Será que o mesmo acontecerá no Brasil?

Um Trackback

  1. Por Pedaladas em Pequim | 10porhora em 08/23/2011 às 09:15

    […] acupunturista chinês. Ele vive em um bairro histórico da cidade e pedala por toda parte. Seu blog está recheado de belas histórias e vale a leitura. Segue o link de um artigo sobre suas pedaladas […]

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