Primeiras Impressões

É sexta-feira, dia sagrado para os muçulmanos e enfrentamos o marasmo na clínica da Estação de trem de Bandra. Repasso a semana e organizo as idéias. Sem dúvidas, foi uma semana intensa.

Cheguei cedo na clínica na segunda-feira, ansioso para começar o trabalho. Atrás de uma pequena porta de ferro, está a Barefoot Acupuncturists de Bandra – favela de Mumbai, uma clínica organizada e relativamente confortável. Os pacientes se acumulam na sala de espera enquanto nos preparamos. Walter dirige o lugar com mãos de ferro e observa cada detalhe – “ Essas cadeiras devem ficar enfileiradas…”, diz enquanto as organiza. Lembrando de sua viagem no dia seguinte, me avisa que eu devo ser responsável por zelar que a clínica fique em ordem durante sua ausência. Mostra orgulhoso o espaço, composto por cinco macas, uma pequena sala de espera e uma copa. À exceção das cadeiras, tudo estava em ordem e começo conhecendo a assistente, Pooja, que acumula as funções de assistente, secretária, tira-agulhas e tradutora. Em seguida conheço Marta, acupunturista espanhola que está no projeto há três meses e também Megna, uma acupunturista indiana que é a responsável pela clínica.

Logo começamos o trabalho. Minha primeira paciente é uma menina de apenas dois anos com dores de cabeça temporais. Ainda conectado ao ritmo tranquilo e metódico do Dr Wang, trabalho tranquilamente se sem pressa, observando e questionando sinais e sintomas, fazendo palpação de canais. Enquanto isso, Marta e Megna correm por todos os lados. Após atender um paciente, Walter se junta a mim. Com olhar examinador, pergunta sobre tudo que faço, desde a escolha dos pontos à manipulação das agulhas. Por ser novo na clínica, recebo os casos antigos (e em geral sem muita resolução). Bom, se é para funcionar, devo começar tudo novamente e questioná-los como se fosse a primeira que vez.

Não me sinto confortável, confesso. Acostumado ao meu ritmo e minha própria rotina em meu consultório, ser questionado assim não me agrada. É uma questão complexa. Walter criou a forma de trabalho, metodologia e sua prática há anos. Eu estou recém-chegado, turbinado pelo modo polêmico de praticar Medicina Chinesa do Dr Wang. É natural ser visto com desconfiança. Que não é proveniente somente do chefe, mas também da equipe e dos pacientes. E como Medicina Chinesa nem sempre é tiro e queda, só o trabalho e os resultados apagarão esse receio inicial.

Às duas, acabamos o trabalho na clínica de Bandra. Atendemos ao todo vinte e três pacientes. Depois do almoço, um novo turno começa na Clínica da Estação de Trem de Bandra, localizada a dois metros da linha de trem. Enquanto a outra clínica é exemplo de organização, essa é o avesso. Localizada na favela, temos a companhia de uma família inteira que mora em sua porta. O lugar é muito sujo e não há banheiro com água corrente. Aqui nossa realidade se aproxima dos nossos pacientes.

A favela da Estação de Trem de Bandra cerca o terminal de mesmo nome. São pequenos barracos acomodados ao lado dos trilhos. O trem, ao passar, cria grande alvoroço, movimenta pessoas, crianças, cabras, galinhas e cachorros. Walter me leva para uma caminhada em seu interior. Me explica a situação da clínica e as dificuldades encontradas para prospectar pacientes. Os moradores ali falam hindi e urdu, além das barreiras culturais. Enquanto ele fala, minha mente divaga à condição miserável que encontro. Me impacta, me marca. É um dos lugares mais miseráveis que já fui. Ao voltarmos, penso na situação brasileira e nas nossas favelas, tão distantes e ao mesmo tempo, tão próximas e semelhantes.

No dia seguinte fico mais solto para trabalhar e o faço de forma mais desenvolta. Me despreocupo com as explicações e busco meu estilo, minha forma de trabalho. Aos poucos vou me soltando e o trabalho ocorre de forma mais tranquila. Analiso os principais problemas e desafios. Em muitos casos, temos uma situação muito parecida com as encontradas em favelas e periferias brasileiras. Casos de obesidade acompanhados por disfunções ortopédicas crônicas são os campeões nas fichas de consulta. Uma outra questão é a vida dura que nossos pacientes enfrentam todos os dias. Isso não é algo que se transforma somente com a Acupuntura, mas espero que nosso trabalho seja um pequeno alívio na vida sofrida desse povo simpático e acolhedor. Sei que não resolve e que passa longe do problema principal, mas oferecemos nossa singela contribuição, para que mude pelo menos o dia ou a semana dos nossos pacientes.

Na quarta estamos sem Walter, que rumou para uma curta temporada na Bélgica. Tocamos a clínica com afinco e mantemos o ritmo. Vou me acostumando com os pacientes, com a nova rotina e com os novos colegas, tão importantes não somente na tradução linguística, mas também cultural, como em sua brilhante técnica de avaliar a melhora, relacionando a dor ao dinheiro – “se ficar bom é ter uma rupia (moeda indiana), quanto falta para melhorar?” ao qual o paciente responde: “vinte e cinco centavos” e a tradução chega como: “setenta e cinco por cento de melhora”; simplesmente perfeito.

Se os dias são de muito trabalho, as noites são de festas. Há um festival homenageando um dos muitos deuses venerados na religião hindu. As ruas estão enfeitadas com luzes coloridas e flores e há um palco literalmente em frente à minha casa. Desço para a festa e danço com toda a rua em uma espécie de quadrilha onde cada grupo de amigos improvisa seus passos no ritmo da canção temperada de batuques executada por uma pomposa banda. Se Mumbai é uma cidade cosmopolita e seus moradores mais abastados conhecem bem o ocidente, em Bandra um ocidental é novidade e eles ficam extremamente empolgados com minha presença.

Na quinta é feriado, mas abrimos a clinica para abençoar o trabalho. Os aparelhos e materiais são colocados e abençoados em um ritual que conta com frutas, legumes e flores. Me pedem para quebrar um côco e jogar sobre os materiais em cima da mesa. Quebro o côco e faço a festa, jogando água por tudo quanto é lado, para depois perceber os aparelhos de eletroacupuntura, os livros; mas o que é benção não há de prejudicar. Toda a cidade está enfeitada de flores e a clinica também. Recebo de Urjwala flores para colocar também na porta de minha casa.

Nos dias seguintes sigo meu trabalho com mais segurança. Sei o que faço e procuro colocar em prática o conhecimento acumulado. A empreitada não é fácil e trabalhar em um ambiente que não favorece em nada a melhora do paciente é um desafio tão grandioso quanto excitante.

4 Comentárioa

  1. tati miranda
    Postado em 10/11/2011 às 17:09 | Permalink

    Imagino o quão dificil deve estar sendo para se adaptar! enriquecimento cultural e espiritual tenho certeza que terá!!! sucesso e tudo de melhor sempre!!!! luz!!!

  2. beto
    Postado em 10/13/2011 às 21:41 | Permalink

    Vá em frente.Confie em você.Aos poucos V. perceberá que, com suas ações v. está contribuindo,e muito, para melhorar as condições dessas pessoas.

    Beijos , bom trabalho emuita saúde.

  3. Claudio Ferreira
    Postado em 10/14/2011 às 17:27 | Permalink

    Betinho,
    a paciencia é a maior das virtudes. Aos poucos vc saberá impor o seu rítmo.
    Sobre o post anterior, tem uma coisa que acupuntura nenhuma consegue combater. É o gene JC* da calvice.

    Grande abraço

    Nota: JC de José Cantídio

  4. celso
    Postado em 10/15/2011 às 11:33 | Permalink

    Quem diria, Betinho que um dia vc. teria estes experiências?
    Acho que o Claudio se enganou: a calvicie não vem do vô, mas certamente do bisavô Benjamim. bjos do tio, celso

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