Por entre os hutongs


Decidir onde se vai morar e procurar apartamento nunca é tarefa fácil. Ainda mais em um país estrangeiro, em uma cidade gigantesca como Beijing e quando não se fala a língua de maneira fluente. Essa foi a minha primeira e ingrata missão ao desembarcar na China.

Olhando em anúncios na internet, rodei por vários apartamentos. Dos que cabiam no meu orçamento, vi de tudo, desde o muquifo mais horroroso ao mais distante, porém excelente. Essa era uma questão a se pesar, escolher um lugar que não fosse muito longe da clínica e ao mesmo tempo também perto de tudo, por um valor acessível.

Depois de muito olhar, acabei me apaixonando pela região da estação de metrô de Yonghegong, ou Templo Lama. Possui dois templos, um Lama, ou budista tibetano e um dedicado à Confúcio. Bem próximo também há o Parque Ditan e um longo canal onde há vários restaurantes excelentes, que oferecem churrasco de carneiro e mariscos como iguarias principais. De bônus, a rua Gulou, onde vários restaurantes tradicionais oferecem pratos de toda a China.

Templo Lama

 

Vi um apartamento ali, simpático, com quarto grande e banheiro razoável. Os banheiros aqui merecem um destaque especial. Como nós brasileiros temos essa mania estranha de tomar banhos diários, é sempre uma questão a se considerar. Se estão situados em apartamentos mais antigos como é o caso, ou são impraticáveis ou parecem banheiro de barco, com um box de plástico e um chuveiro baixo.

À 10 minutos de Yonghegong, achei o apartamento que chamaria de casa nesses próximos meses. No apartamento já moravam Savan, do Sri Lanka e Dimitar e sua namorada Lili, um búlgaro criado nos EUA e sua namorada taiwanesa. Savan trabalha como jornalista para o governo chinês, já morou em vários lugares do mundo, é um grande contador de casos, mas seu maior talento é descobrir os melhores e mais baratos restaurantes da região. Foi ele que me apresentou, logo no meu primeiro dia, o pastel de belém. Vendido em praticamente todas as lojas de doces de Beijing, o pastel de belém já virou uma iguaria local. Dimitar e Lili são mais reservados. Ele trabalha para uma ONG que observa e dá consultorias acerca de maior transparência nas relações trabalhistas em fábricas chinesas. Nos divertimos muito conversamos sobre política e ele me ajuda a me situar sobre a situação real chinesa e como muito dos chineses vêem o governo e sua situação em geral. Lili está por aqui de férias, seu jeito calmo e tranquilo taiwanês contrasta muito com o dos pequineses, sempre na correria e barulhentos.

Lili, Dimiter e Savan

A região é fantástica. Os hutongs é um complexo de vilas de pequenas casas que remetem ao período imperial e que após o comunismo, foram repartidas e divididas entre famílias. É um tipo de construção baixa, de tijolos cinzas e paredes conjugadas. Isso dá ao bairro um ar pitoresco e despojado. Como em nossas favelas, a região é muito viva e encontramos nas ruas todo o tipo de comércio.

Situado no meio dessas pequenas casas, está o conjunto de prédios onde moro. São dez prédios de seis andares, cada vez mais ocupados por estrangeiros, que aproveitam não só o custo mais baixo da região, mas também sua praticidade e toda a cultura chinesa que existe ao redor.

Beijing é uma cidade que cresce em ritmo acelerado e cada vez mais as construções tradicionais dão lugar à condomínios modernos e suntuosos. Para uma população que sempre esteve acostumada ao convívio próximo, reflexo dos tempos iniciais do comunismo e pré industrialização, isso representa uma grande mudança.

Os hutongs ainda preservam essa característica de vila ou de cidade interiorana. É envolvido por um labirinto de becos, pequenas ruas estreitas e muito movimento. Em todos os cantos há pequenas lojas de bebidas e cigarros, mini mercados, lavanderias e vários pequenos locais onde se vendem churrasquinhos , jiaozi ou guiosa e sanduíches ao jeito chinês, geralmente com carne de porco e ovo frito. Aos poucos, vem sendo invadido por modismos internacionais, como uma delicatessen francesa, onde se pode encontrar caríssimos vinhos e finos brie, uma loja de cupcake e um restaurante mexicano. Eu e Savan em uma tentativa quixotesca de barrar o avanço ocidental, prometemos nunca comer um cupcake, mas confesso que será difícil resistir às tentações de uma tortilla à apenas cinco minutos de casa. Além disso, uma recém inaugurada sex shop 24h também dá um certo charme sujo ao lugar. Passei pela pequena loja no dia de sua inauguração e o dono, um chinês, sorria e nos convidava à entrar. Bom, fica para a próxima.

Por ter muito estrangeiros, somos tratados com uma certa indiferença por aqui. De tão acostumados, os chineses já nem ligam mais para os estrangeiros do lugar. Fato bem diferente em outras regiões da cidade. No entanto, ao perceber que se fala (ou ao menos tenta) o mandarim a situação muda. Eles criam uma curiosidade instantânea, o que ás vezes rende boas histórias.

Uma noite após o estágio, saí com Savan para comer churrasquinhos na porta de de casa. Em geral, o churrasquinho é bem pequeno e feito dos mais variados ingredientes. Carneiro, porco, frango, coração de galinha, tofu e até mesmo alho puro. Ao conversar com o churrasqueiro, que parecia ter 12, mas na verdade tinha 19 , fazendo uso de meu mandarim trôpego, um senhor se aproximou e perguntou:

– De que país você é?
– Brasil.
– Humm. O time de basquete do Brasil é ruim.
– Verdade. Somos bons no futebol (ok, hoje nem tanto, mas ele não precisava saber né?).
– Ah sim. Futebol é bom. Pelé, Vavá…
– Vavá?!?!?!? Vavá?!?!?!?
– Sim, Vavá!
– Você conhece o Vavá?
– Conheço!

 

Nesse momento tive uma crise de riso. Nada de referências recentes, como Kaká ou Ronaldo. O sujeito realmente conhecia o Vavá. Inacreditável.

Por coincidência, ao ler o capítulo do livro do Dr Wang Ju Yi sobre o Yangming, me deparei com uma passagem interessante. Jason Robertson, aluno de Dr Wang que passou quase dois anos junto à ele para escrever o livro, também morou por essas bandas e Dr Wang compartilha um caso clínico onde se pode perceber o quão conectada é a vida nos hutongs.

 

Uma senhora, que sofria de diarréia crônica há muitos meses e fora diagnosticada com colite alérgica. Várias casas nos hutongs ainda não possuem banheiro próprio e os moradores fazem uso dos vários banheiros públicos disponíveis por toda a região. Sua diarréia a despertava logo cedo pela manhã e tal necessidade virou uma rotina, percebida pelos vizinhos. Após algumas sessões de tratamento com Dr Wang, conseguiu dormir até as 10 da manhã, sendo acordada por vizinhos que não a viram em sua romaria diária rumo ao trono. Ao sair para o estágio rumo ao metrô, às 6 e meia da manhã, é comum ver senhoras saindo do banheiro ainda em seus pijamas.

 

Morar em Yonghegong e em meio aos hutongs foi um verdadeiro achado. Não poderia ter imaginado lugar tão perfeito. Se os contrastes existem, também são encarados com uma certa tranquilidade pelos chineses, que se adaptaram a tantas mudanças em tão pouco tempo. Sinto que estou por aqui na hora certa, pois certamente essa região logo dará lugar à lojas de grife e à restaurantes refinados. Eu prefiro a simplicidade e simpatia do arranjo atual e fico feliz por poder fazer parte de um tempo e lugar onde a China antiga ainda pulsa.


18 Comentárioa

  1. Rodrigo Cabelo
    Postado em 07/29/2011 às 13:40 | Permalink

    Hahahaha… ri demaiss do vava !!!
    imaginei voce rindo dos japas !!
    Muito bom cara, boa sorte pra voce ai…
    abraço

  2. Karenina
    Postado em 07/29/2011 às 18:52 | Permalink

    Que delícia acompanhar sua experiência através de posts tão bem escritos, me deu até uma nostalgia, uma saudade do meu trabalho de campo… aliás, se conselho de antropólogo vale alguma coisa, mantenha um diário “de campo” detalhado, além do que você nos conta, principalmente neste período inicial em que tudo ainda é tão novo. Com o tempo a gente vai se familiarizando e deixa de “enxergar” as coisas. Vira rotina. É divertido depois de um tempo reler e reviver o começo. Além do mais, assim você registra coisas da vida cotidiana e do seu aprendizado profissional. Quem sabe vira um belo livro na volta?
    Beijos e tudo de bom por aí.

  3. Postado em 08/02/2011 às 23:38 | Permalink

    Conselho de antropóloga vale demais! Sem dúvida a China também daria ótimas teses hein. Obrigado pela dica, tenho tentando documentar tudo no meio dessa rotina corrida aqui.
    Beijão!

  4. Roberta
    Postado em 07/30/2011 às 01:16 | Permalink

    Delícia de texto! ?????
    bjo!

  5. Thiago Colchão
    Postado em 07/30/2011 às 10:28 | Permalink

    Vai virar rotina passar por aqui pra ler os otimos textos do Val. Experiencia maravilhosa que vc está vivendo. Prepare-se para escrever um livro em sua volta. Abraços Colchão

  6. Postado em 08/02/2011 às 23:38 | Permalink

    Valeu meu caro!

  7. alice
    Postado em 08/01/2011 às 09:46 | Permalink

    betinho, nossa que maravilha
    é um aprendizado, com certeza vc se adaptando melhor irei com luiza e mamae, vc arruma um hotel perto da sua casa, e vamos nos divertir

  8. Gerson
    Postado em 08/02/2011 às 09:31 | Permalink

    Olá Dr. Alberto!!!!!!!
    Sua mãe esta aqui sorrindo das suas anunciadas idas ao trono, dessa
    os hutongs estão livres, pois seu trono é particular……kkkkkkkkkkkkkk.
    Abração Gerson

  9. tati miranda
    Postado em 08/02/2011 às 14:00 | Permalink

    Betinho abri um sorrisão ao ler seu texto. Quero mais! obrigada por compatilhar! bjo

  10. Paulinho César Coelho Ferreira
    Postado em 08/02/2011 às 14:40 | Permalink

    Seu pai não vai ficar muito feliz ao saber que você está sendo esperado com abraços no Colchão.
    Meio esquisito, eu achei.

    E tá vem como o spam funciona,…?

  11. Postado em 08/02/2011 às 23:36 | Permalink

    HAHAHA. Beleza Cesão!

  12. Núbia
    Postado em 08/02/2011 às 18:30 | Permalink

    Nihao, hao pengyou!
    Fico muito feliz que tenha encontrado a casa certa! É isso aí, aproveite intensamente sua estadia na China, porque o tempo voa…
    Beijos

  13. Postado em 08/02/2011 às 23:39 | Permalink

    Suas dicas se mostraram muito úteis. Agora temos que convencer o Dr Wang a ir pro Brasil!

  14. ilma
    Postado em 08/02/2011 às 19:53 | Permalink

    betinho espero q curta cada momento com prazer desfrutando e tirando proveitos para sua vida; de fato meu filho vc esta vivendo uma experiencia e tanto. aproveite meu filho ; te amo muito saudades.

  15. Postado em 08/02/2011 às 23:41 | Permalink

    Estou com saudades também Mãe. Fica tranquila que por aqui está tudo ótimo!

  16. newton ferreira
    Postado em 08/02/2011 às 20:06 | Permalink

    pode marcar a primeira consulta para mim quando vc voltar.um abraço

  17. newton ferreira
    Postado em 08/02/2011 às 20:07 | Permalink

    e ainda tem moderador para encher o saco?

  18. Postado em 08/02/2011 às 23:31 | Permalink

    Infelizmente tenho que moderar os comentários pois o site é frequentemente alvo de spam. Mas estou sempre checando e aprovo todos os comentários. Abraço!

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