No topo do nordeste da China

Cheguei em Wutaishan à noite. A vila é extremamente interessante. Predios baixos e quadrados, com seus contornos adornados por luzes neon brilhantes. De repente parecia estar em pleno natal. O clima não era só natalino, mas também montanhoso e senti frio de verdade na China pela primeira vez. Encontrei uma pequena pousada pela módica quantia de dez reais por noite e sai em busca de um lugar para jantar e uma blusa de frio.

Sendo uma vila turística, são inúmeras as lojas de souvenires, restaurantes e hotéis. Jantei em um excelente restaurante vegetariano e caminhei pela cidade à noite, em busca de informações sobre como melhor fazer a caminhada pela montanha. Em tempo: esperava que Wutaishan fosse como Emeishan*, com inúmeros caminhos bem definidos e uma infinidade de templos para se visitar durante o trajeto e dormir, se necessário. Não era bem assim. Embora esses templos e caminhos também existissem, seria preciso passar muito tempo em estradas, o que não havia em Wutaishan. A dificuldade então era definir por onde começar.

São cinco picos, por isso Wutai Shan, ou montanha dos cinco picos. São nomeados de acordo com sua localização. Norte, Sul, Leste, Oeste e Central. Com tantas escolhas e sem falar um bom chinês não era fácil decidir. Quando entendia o que o outro falava, ás vezes me dizia que era impossível ir – “muito frio, muito longe” e quando parecia que me dava de fato dicas, ás vezes me eram incompreensíveis. Decidi começar pelos templos situados na base das montanhas e obter informações por lá.

Acordei cedo em um belíssimo dia de domingo. Céu azul, poucas nuvens, frio e excitação. Me apressei para tomar o café, um pão chinês com um suco de uma fruta local e também frutas como banana e caqui. Pela experiência de outras caminhadas no Brasil, sei que no frio e no exercício intenso, não há melhor remédio para o final do dia do que uma boa aguardente. Comprei um baijiu, uma aguardente chinesa que me serveria para aliviar as dores e aquecer durante as noites frias montanhosas.

Parti para o templo Taiyuan, cartão postal de Wutai, começando a jornada. Com uma mochila grande, câmera fotográfica, gorro e minha extravagante nova aquisição, uma jaqueta roxa – a mais discreta de todas disponíveis, acreditem – era impossível não chamar atenção. Praticamente não vi turistas estrangeiros e por onde passava era requisitado para fotos e olhado com um misto de espanto e admiração.

Pelas ruas se ouvia uma repetição da mesma música, um cântico budista que ecoava por todas as lojas de incensos e artigos religiosos. Pelas pequenas ruas ainda se via vendedores de castanhas, de pequenos talismãs, monges e muitos turistas. Já na porta do templo, fui abordado por dois monges tibetanos. Com uma dificuldade ainda maior de comunicação do que com os demais, conseguimos conversar o suficiente para dizer que eu era brasileiro, estudava Acupuntura e morava em Beijing. Eles estavam viajando e eram de uma província vizinha ao Tibete. Dong An e Qü Yin então me convidaram para acompanhá-los e convenceram ao monge-porteiro do templo que entrasse junto a eles, sem pagar entrada. Eles também estavam ali como turistas e tudo era novidade para os três. A cada lugar que passávamos, explicavam detalhadamente e eu, claro, não entendia absolutamente nada. A caminhada estava muito agradável. Não planejei permanecer ali por tanto tempo, mas ter como guias dois monges tibetanos em um mosteiro budista não é coisa que se acontece sempre. Segui seu ritmo, sempre sem pressa e visitamos todo templo. Ao final, disse que gostaria de começar minha caminhada pelo Pico Oeste, sendo prontamente desaconselhado com um motivo que meu mandarim falhou em captar. Sugeriram que começasse pelo Pico Sul e de lá fizesse todo o trajeto. Seriam três dias de caminhada na montanha, passando por todos os picos. Eu tinha que voltar na terça até o meio dia e seria tempo suficiente.


Os dois bons monges me levaram até a estrada onde deveria começar a caminhar, tendo inclusive pegado o ônibus comigo até lá. Passei meu telefone para eles e disse que se fossem em Beijing, que me ligassem. Quase um mês depois, os dois passariam um final de semana em minha casa, causando grande confusão.

Agora só, continuei a caminhada em uma estrada de asfalto rumo ao Pico Sul. No caminho, templos , flores e nuvens carregadas com seus trovões. Isso me preocupava, pois se quisesse passar por todos os picos, deveria ao menos atingir o cume sul ainda neste dia. Não adiantava correr, no entanto. Montanha se sobre como jegue, devagar e sempre. Tirava fotos pelo caminho e me fingia indiferente à ameaça de chuva, que logo se confirmou como verdadeira. Saquei o guarda-chuvas e segui em frente, chegando à uma pequena parada com restaurantes improvisados onde termina a estrada e começa o caminho, que é de concreto e bem feito, bem ao estilo de Emei.

Era quase duas da tarde e aproveitei para almoçar. Pedi macarrão com frango xadrez e chá. A chuva havia se transformado em um temporal e vários peregrinos se acumulavam debaixo da pequena barraca de lona. O jeito era esperar e lá fiquei até que a chuva cessasse, duas horas depois.

Segui resiliente na caminhada, descansado pela parada e bem alimentado. O dia estava próximo do fim e havia perdido duas horas importantes devido à chuva. O morro era íngreme e subia as escadas com tranquilidade. No caminho, gente de todo o tipo: crianças, adultos e velhos, cada um em seu ritmo, mas sempre na certeza do chegar.

Em pouco tempo atinjo um templo do Buda na Caverna. Um construção linda, no meio de um cenário paradisíaco. Sigo sem parar, pois queria atingir o pico sul ainda em tempo. A caminhada se torna mais agradável pois o caminho que antes era de concreto e em escadas, agora é de terra e chão batido. Continuo e passo por uma obra chefiada por um monge, no que será futuramente um hotel. Olha para cima e vejo o Pico Sul, perto, o sol baixa rápido, mas ainda havia bastante tempo. Subo sem pressa. Me canso, paro e sigo. Muito perto da onde a vista alcança, encontro um chinês caminhando sozinho, como eu. Más notícias. Havia acabado de passar pelo pico Sul. Não havia mais lugar para dormir e não há nada ao redor. O cair da noite era eminente e a decisão foi tomada rápidamente. Retornar ao templo do Buda na Caverna e tentar abrigo por lá.

Nesse meio tempo, mais conversa. O novo amigo falava um pouco de inglês, assim como falo chinês. A passos largos, me contou como estava de mudança para Austrália em novembro e que gostava muito de falar inglês. No templo da Caverna, mais más notícias. Não havia lugar para dormir. Meu amigo quis insistir e eu já me direcionei para descer e retornar até Wutai. Se ganha algumas e perde outras…

Chegamos em Wutai já de noite. Arrumamos uma pousada barata e por lá passamos a noite. O sujeito me levou à um restaurante onde vi uma das coisas mais impressionantes da minha vida. Um robô que faz macarrão. Corta a massa e joga direto na panela. Brilhante. Comi o macarrão do robô e me preparei para recomeçar tudo no dia seguinte. Andei pelas ruas da vila e me senti muito confortável e feliz.

Não perdi tempo na manhã seguinte. Macarrão do robô de café da manhã e um táxi até o Pico Leste. Taxis sempre são minha última escolha em transportes em viagens, mas não havia sentido caminhar por tanto tempo em uma estrada de asfalto e queria estar na montanha logo. O taxi me deixou a dois quilômetros do templo do Pico Leste e de lá consegui uma carona. Cheguei ao templo, enorme e de lá pude ver o Pico Norte e o Central. Fotos, reza e pé na estrada.

A próxima parada seria o Pico Norte. Caminhei por uma estrada pequena, de calçamento de concreto, na crista da serra entre os dois picos. Tentei pegar algumas caronas, mas sem sucesso. Segui caminhando aproveitando a belíssima paisagem e a proximidade das nuvens.

O Pico Norte é o mais alto e se situa a 3053 metros acima do nível do mar e para chegar até lá, a estrada se torna sinuosa e levemente íngreme. Cheguei com tranquilidade. O céu estava incrivelmente azul. O templo é maravilhoso e gigantesco. Andei pelo templo, conversei com as pessoas e tirei fotos. O relógio marcava quatro horas da tarde. Titubeei se iria ou não para o Pico Central, que estava bem em minha frente. Temia chegar por lá e estar lotado, como no Pico Sul, no dia anterior, mas conversando com os monges, me disseram que lá não correria esse risco.

Turbinando a canela novamente, segui para o Pico Central. Foi uma caminhada tranquila e por todo o tempo via a enorme parede do templo em minha frente. Era uma visão cinematográfica. Parecia um forte. Enquanto andava impressionado com a beleza do lugar, a calmaria no entanto foi interrompida por três cães, que sugiram de repente. Quando me dei conta de sua presença, já estavam em minha frente e rosnavam contra mim. Parei e fiquei alguns minutos com a cabeça baixa. Eles não avançaram. Ignorei os dentes cerrados e segui. Ao fundo escutava latidos mas não olhava para trás. Foi um susto enorme. Munido agora pela adrenalina, rapidamente cheguei ao topo.

Ao chegar um espanto: o templo estava em construção, com cinco caminhões de cimento, duas escavadeiras. Foi um balde de água fria. Qual o sentindo de caminhar tanto e chegar em um local totalmente revirado por máquinas? O templo era de fato muito bonito, mas estava completamente em reformas. Mas fiquei muito frustrado e quis retornar para a vila. Não queria passar a noite por lá, no meio das máquinas e dos caminhões. Fui recebido por um sujeito atacarrado, simpático, com um longo bigode que me levou até o monge responsável. Ele então me avisou que haveria um carro somente no dia seguinte pela manhã. O jeito era esperar. Tinha que pegar o ônibus no dia seguinte por volta de uma hora da tarde.

Sem opção, deixei minhas coisas em um grande quarto com vários colchões conjugados. Vesti minha roupa de frio e lancei mão da aguardente de arroz e fui para um quadrado situado à beira de um abismo, onde os monges colocam várias bandeirolas coloridas. Sentei na beira de uma de suas pontas e me pus a observar o pôr-do-sol. Aos poucos, comecei a sentir uma paz enorme. Estava em um dos lugares mais altos do nordeste da China. A neblina chegou e omitiu não somente o sol, mas toda a paisagem caótica da construção. É difícil colocar em palavras o que senti ali. Tive momentos de catarse intensa e senti uma plenitude enorme. Chorei muito ao pensar em todo os eventos que culminaram naquele momento. As escolhas, os erros, os acertos. Como a vida se acertou e se desenrolou para que chegasse àquele ponto. Me senti um afortunado por estar em um lugar tão inóspito e remoto; por poder ir em lugares onde nunca havia sonhado estar e principalmente, por conseguir estudar aquilo que amo e ter tido a felicidade de encontrar bons mestres e construir um bom caminho. Senti uma gratidão enorme aos sacrifícios e dificuldades enfrentados pelos meus pais, em todo o processo que me levou até lá; e aos pacientes, por sempre me motivarem a buscar mais e ampliar minha inesgotável sede de conhecimento.

O sol se foi e não sentia vontade de sair de lá. Ventava forte e frio. Então o mesmo sujeito atarracado apareceu para me chamar para jantar. Disse que tinha procurado em todos os cantos por mim. A plenitude do coração constratava então com o vazio do estômago e fomos rapidamente para a cozinha. Um grupo de peregrinos havia chegado sem que me desse conta. Comemos um delicioso jantar de arroz, macarrão, vegetais, pão e um refogado de batata. Ao término da janta, avisei que iria retornar ao quadrado. Um monge se ofereceu para ir comigo.

Chegamos novamente ao quadrado e já era noite negra. Conversamos um pouco, dentro das barreiras lingüísticas que nos separavam. Me contou que era de Guanzhou e que eu deveria ir até lá para conhecer seu mestre. Em momento me mostrou o céu e pela primeira vez desde que cheguei a China, o vi completamente estrelado. As luzes e a poluição pequinesa tiraram me o hábito de olhar para a cima e por semanas não havia nem mesmo visto a lua. Fazia muito frio e retornamos ao quarto. Antes de dormir, me ensinou a meditar e me disse que o fizesse todos os dias, pelas manhãs e a noite. Que como um acupunturista deveria pensar nos pacientes, em minhas técnicas e que isso se refletiria em meu trabalho, pois poderia então antecipar problemas e resolvê-los facilmente durante o dia a dia. Meditei até quanto pude e dormi em seguida. Como a flor de lótus, que nasce em esplendor no pântano, tive a experiência espiritual que queria no local menos esperado.

No dia seguinte, peguei o carro até a vila de Wutai, de onde peguei o ônibus para Beijing. Antes, fui assediado como um artista de cinema. Vários chineses na porta de um templo se enfileiravam para tirar foto comigo. Uns não quiseram nem correr o risco de ficar sem o registro, tiravam sem pose sem permissão, sem preparo.

Saí feliz e renovado para retornar à Beijing e continuar meu treinamento, depois das oito horas dentro do ônibus Wutai – Beijing.

 

Mais fotos no link: https://www.facebook.com/media/set/?set=a.205523389515675.50710.100001740451817&l=af9d24bc77&type=1

2 Comentárioa

  1. Beto
    Postado em 09/28/2011 às 21:08 | Permalink

    Mais uma vez obrigado pelo têxto e pela referência. Me sinto muito feliz por, de alguma forma, ter contribuído para que você pudesse estar realizando parte de seus sonho. Não estabeleça limites no sonhar. Sonhe sempre.Beijos.

  2. Lud
    Postado em 10/01/2011 às 16:04 | Permalink

    qual eh a distancia de Beijing? Vc foi de onibus? Da pra gente ir tbm, eu amei esse lugar…bjim…e agora q venha a India:)

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