Na maior favela da ásia

No meu primeiro dia na Índia, me juntei a Walter para uma reunião com representantes de uma ONG de jainistas em Dharavi, a maior favela da Ásia. O objetivo da reunião era acertar os detalhes de uma parceira com a Barefoot que visava a criação de uma clínica de acupuntura no local. Eles custeariam toda a infra-estrutura necessária e nós com a mão de obra.

As negociações já estavam avançadas e naquele dia encontramos com o arquiteto para definir as benfeitorias que seriam feitas no local. Nos encontramos na principal ruela de Dharavi, onde estão localizadas as joalharias dos jainistas. Saindo da rua principal, por um beco, nos fundos de uma delas estava nossa futura clínica.

Confesso que não gostei nada do que vi. A começar pelo acesso, uma escadaria sem corrimão. Logo disse para Walter – a primeira coisa a fazer é o corrimão – e ele acenou dizendo que já estava nos planos. Ao subir as escadas e chegando ao cômodo que seria melhorado, a visão não foi nada reconfortante. Uma verdadeira espelunca, uma sala desativada que servia de depósito de arquivos velhos com paredes escuras e sujas, pouca iluminação e quase nenhuma ventilação. Com seu jeito afável, Mahindra, um dos responsáveis da ONG tratou de nos tranquilizar: mudaremos o teto, o piso e colocaremos ventiladores. Ao saber dos custos da obra, foi a vez de Walter protestar. Teria que ficar mais barato, é um trabalho social e mesmo que o dinheiro não saísse do seu bolso, não achava justo gastar tanto. Definiu alguns cortes no orçamento e após saber do arquiteto a previsão das obras, foi acertado o dia sete de novembro como data para abertura da clínica. Era primeiro de outubro.

Quatro dias depois, Walter viajou para a Europa e eu segui meu trabalho nas duas outras clínicas, de Vijay Nagar e Bandra Station. Em seu retorno, um mês depois, percebeu que as obras andavam muito lentas e a data para a inauguração virou uma incógnita.

Enquanto isso, procurei saber mais sobre Dharavi. Hoje uma favela de 1 milhão de habitantes, antigamente uma pequena vila de pescadores, a favela se formou na primeira metade do século passado, com imigrantes de outras províncias indianas, como Tamil Nadu ao sul e Uttar Pradesh no norte. Seus primeiros moradores se acomodaram sobre a região pantanosa, que inundava a cada monção – período de chuvas na Índia, que dura cerca de três meses.

Uma característica marcante de Dharavi é sua vocação industrial. Muito mais do que apenas um aglomerado de barracões, possui também presença imensa de industrias. Desde de simples fabriquetas caseiras de potes de cerâmicas a empresas de reciclagem de lixo e confecções. A receita gerada em Dharavi é estimada em 1 bilhão de dólares por ano.

Outro fato importante é a diversidade de culturas que se encontra por lá. São mulçumanos, cristãos, hindus das mais variadas províncias da Índia. Tal convivência não é tão simples e mulçumanos e hindus já se enfrentaram em 92-93 provocando um dos mais sangrentos conflitos da história de Bombaim e que dividiu vizinhos e conterrâneos de acordo com sua religião. Hoje no entanto, a favela é pacífica. Há passeios turísticos que exploram o modo de vida dos moradores e pelo que se diz a criminalidade é pequena. Mahindra nos dizia com orgulho que sua joalharia estava por ali havia três gerações e que nunca havia sido assaltada. A favela também foi tema do filme ganhador do oscar “Quem quer ser um milionário”.

Após muito trabalho, a clínica finalmente estava pronta para ser inaugurada. E foi decidido que em um domingo, dia quatro de dezembro, a colocaríamos nossos pés descalços na maior favela da Ásia. Para a abertura, uma pequena cerimônia indiana e atendimento gratuito. Toda a equipe foi convocada e eu também não ficaria de fora.

Acordei cedo no domingo para encontrar Ujwala e seguir para a nova clínica, onde encontramos Walter. Ao passar pelas ruelas uma novidade: os jainistas espalharam placas de divulgação por todo o caminho. E ao chegar na clínica um choque: estava inacreditavelmente impecável! O piso de cerâmica branca, macas novas, bela recepção e um clima agradabilíssimo. Mahindra e Walter nos receberam com sorrisos que estampavam sua satisfação e seu orgulho com o lugar. Eu fiquei extasiado. A clínica está linda e eu nunca poderia imaginar que aquele cafofo visitado dois meses atrás se transformaria tanto.

A seguir uma grande quantidade de gente se amontoou por todos os cantos para a inauguração. Discurso aqui, acolá, equipe de televisão, político e fotógrafo profissional. Tudo que tinha direito. E claro, também pacientes, curiosos com a novidade. Ao terminar a cerimônia, dezenas de pessoas se alinharam para receber tratamento. Enquanto nos restringíamos à sala de atendimento, Ujwala, Pooja e Baradi – esposa do acupunturista Sateesh – anotavam a queixa principal dos pacientes e estes seguiam para ser atendidos.

Atendemos 82 pessoas em quatro horas de trabalho. Era apenas uma demonstração para a população e uma oportunidade de falar sobre os efeitos da acupuntura. Foi um sucesso. Era fácil ver a alegria de todos os participantes no projeto. Me senti mais uma vez privilegiado por fazer parte de tudo isso. Fiquei imensamente feliz por Walter e Ujwala, por toda sua dedicação a um projeto difícil e por suas realizações. E também pelos acupunturistas indianos responsáveis pela clínica, Satish, com quem já convivo há dois meses tenho profundo respeito e admiração e Sashi, a nova contratada da Barefoot.

Finalizamos o trabalho e contamos ainda com um grande almoço oferecido pelos jainistas. Para terminar um dia perfeito, fui assistir a um show de música gazhal, depois de ver o sol se pôr no Mar Arábico.

Fatando apenas duas semanas para deixar a Índia, terei apenas mais três oportunidades de trabalhar em Dharavi, pois enquanto Walter se dedica à nova clínica, fico responsável pelas outras duas. E a Barefoot está agora na maior favela da Ásia, ampliando ainda mais seu âmbito de atuação nas partes pobres de Mumbai, nesse projeto incrível concebido por Walter Fischer e que eu sou um afortunado de poder dar minha singela contribuição.

4 Comentárioa

  1. tati miranda
    Postado em 12/12/2011 às 16:57 | Permalink

    uau ficou lindona a clinica!!! parabens pela empreitada!!!

  2. beto
    Postado em 12/14/2011 às 17:43 | Permalink

    É isso aí Betinho! Parabéns à comunidade pela bela clínica que ganharam e, sobretudo , pelas pessoas que trabalharão nela. Com certeza êsse trabalho, ao longo do tempo se consolidará e contribuirá para melhorar a vida das pessoas. Você deve se sentir muito feliz pela sua atuação, e deve orgulhar-se por ela. Aproveite bastante o resto de sua temporada na India. É uma experiência formidável. Beijos Beto

  3. Gerson
    Postado em 12/18/2011 às 01:27 | Permalink

    Olá Dr. Alberto

    Parabens por essa nova conquista, a cada dia você surpreende a todos com
    a sua capacidade de buscar seus objetivos, passando por privações, onde
    muito poucas pessoas na sua condição social e financeira teriam essa ca-
    pacidade de despreendimento. Um abração Gerson

  4. Claudio Ferreira
    Postado em 12/22/2011 às 16:35 | Permalink

    Belo trabalho Betinho.
    Imagino que aí na India não se comemora o Natal, mas o que vale é o espírito de ajudar as pessoas.
    Feliz Natal prá vocês.

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