Na labuta e na folga

Minha segunda semana é de transição. Marta, acupunturista espanhola que esteve por aqui três meses, está de partida. Os acupunturistas indianos retornam de férias. Já havia conhecido Megna, que trabalha pelas manhãs e tem uma técnica de inserção de agulhas excelente; Sattish, trabalha nos dias em que atendemos homens, terças e quintas, e demonstra entusiasmo, competência e enorme vontade de aprender; Geeta, que me acompanha na clínica de Bandra Station, tem enorme empatia com pacientes.

Desde os tempos de ambulatório na escola de acupuntura não atendia tantos pacientes e descobri algo: não consigo trabalhar sem ser meticuloso. Mesmo em um ambulatório cheio, com as dificuldades linguísticas não consigo agir de forma diferente. Ao me deparar com um paciente, procuro obter todas as informações necessárias para definir o melhor tratamento.

Há alguns casos sem muita resolução e de longo tratamento. Isso é normal na prática clínica. Em alguns pacientes não conseguimos os resultados esperados por uma série de fatores ao qual nos foge o controle. Isso causa enorme frustração no terapeuta, que tenta buscar explicações pelo insucesso. Nesses casos, a avaliação constante é obrigatória. Quando trabalhamos sozinhos, essa reavaliação pode ser realizada sem registro escrito, embora não seja o ideal. No entanto, se trabalhamos em uma equipe com vários acupunturistas diferentes, o registro é a única maneira que temos para avaliar nosso progresso e entender a conduta realizada. Essa é uma ótima forma também de mostrar raciocínio clínico aos meus colegas indianos. Reavaliamos todos esses casos. Começamos pela queixa principal, história detalhada da doença e assim por diante. Insisto na questão da minúcia, que pede tais casos. Ao tratar pacientes com dor, isso é fundamental, pois a melhora só pode ser realmente atestada pelo próprio paciente e se, não coletarmos sua história correta, corremos o risco de não conseguir avaliar sua evolução.

Sou muito grato à excelente equipe da Barefoot Acupuncturists. Com muita paciência, eles questionam o paciente, repetem as minhas perguntas (e algumas piadas) e juntos conseguimos extrair as questões necessárias. Em alguns casos é extremamente difícil. São vários elementos que contribuem para essa dificuldade. Os indianos possuem várias línguas e dialetos, sendo o hindi o principal. Em Mumbai a língua principal é o Marathi. Mas há pacientes que falam urdu, kachi, entre outros. Então há vezes que o paciente interage com o tradutor em hindi, que por sua vez traduz em inglês para o acupunturista brasileiro. Incrivelmente, funciona.

Parte da equipe: Sarah, Geeta, Urjwala, Pooja, Marta e Satish

Meu ritmo vem sendo introduzido aos poucos. Estou me adaptando à rotina de Mumbai. É uma cidade incrível. Uma megalópole do segundo país mais populoso do mundo. Muitas pessoas aqui se interessam pelo Brasil e ficam feliz ao saber que temos várias coisas em comum. O povo indiano é feliz e festivo. Apesar de ser alvo de turismo intenso, em Mumbai ainda se comemora a interação com os estrangeiros.

A cidade é caótica. O trânsito é o mais confuso que já vi na vida. Caminhões, carros e riquixás motorizados disputam espaço com pedestres, ciclistas, cabras e vacas. Há uma certa harmonia curiosa nesse caótico sistema. Todo o espaço existente é ocupado e nessas duas semanas ainda não vi nenhum acidente. A buzina é sem dúvidas o componente mais importante de qualquer veículo e seu uso é incentivado por caminhoneiros – horn ok please – ou algo como buzine, por favor, estampa os pará-choques. E buzinar não é uma afronta, mas simplesmente um aviso de presença.

Os trens urbanos são um show a parte. As estações são completamente lotadas e os trens viajam com suas portas abertas e é esse o local preferido de viagem da maioria dos passageiros. Em geral, as mulheres viajam somente no vagão exclusivo para elas, para fugir do assédio sexual que ocorre com frequência nos vagões mistos.

Adoro o tempo na clínica. Fico ansioso para acompanhar a evolução dos pacientes. Tratar pessoas de culturas tão diferentes é algo incrível. Atendo desde crianças de dois anos de idade até idosos de oitenta. Pacientes de burca, homens com a testa pintada, mulheres de sari, me transportam para um mundo que jamais sonhei viver. Aos poucos começo a estabelecer relações mais empáticas com os pacientes. Um dos meus pacientes favoritos é Hussain, um senhor de oitenta anos, proprietário orgulhoso de somente um rim desde 1978 e cuja única queixa é fraqueza – detalhe: ele aparenta ter sessenta anos e é completamente lúcido, uma jóia.

A semana é intensa e eu preciso de uma válvula de escape que a caótica Mumbai não pode oferecer. A solução está no litoral sul de Maharastra, província que tem Mumbai como capital, em Murud Janjira. À seis horas de Mumbai, passando pela odisséia de um ferry e dois ônibus, é um alívio encontrar um lugar tranquilo, por fim. De areias escuras e águas azuis, foi um prazer enorme encontrar com o mar novamente – Mumbai também está no litoral, mas suas praias não são recomendadas devido à poluição. O sul indiano é riquíssimo também em história e em Murud há dois fortes que relembram o período das grandes navegações e das invasões britânicas e portuguesas.

"Estrangeiros se rendem às histórias dos fortes de Murud contadas pelo grande Babasaheb Purandare.""

Por sorte, Sarah, a voluntária canadense e eu, somos convidados a visitar o inacessível forte Kasai e de quebra, conhecer um dos maiores historiadores de Maharastra, Babasaheb Purandare. Esse encontro foi inclusive publicado no jornal local por Nitin Shedge, um jornalista local, amigo e guia que nos levou pelos fortes de Murud. No jamais conquistado forte Janjira, somos recebidos por um sujeito com uma toca do Brasil e que gentilmente ajuda os turistas a desembarcar. Ao final da viagem, Nitin sugere realizar uma viagem para Murud para tratar sua grande população carente. É uma idéia que me agrada profundamente.

Babasaheb gravando um documentário sobre Janjira

Brasil na cabeça!

Se o sonho de trabalhar com a comunidade carente de Murud ainda é distante, perto são as favelas de Mumbai e segunda o trabalho é intenso. Conhecer o interior da Índia me renova e sigo cada vez mais empolgado.

Foto: Nitin Shedge

Foto: Nitin Shedge

Foto: Nitin Shedge

Foto: Nitin Shedge

3 Comentárioa

  1. beto
    Postado em 10/20/2011 às 18:31 | Permalink

    Como sempre, seus têxtos são muito estimulantes e traduzem as sensações que você está vivenciando. Muito boa a idéia de relaxar no litoral. Suponho que funciona como uma válvula que o alivia das tensões da semana. É, também uma oportunidade de conhecer melhor o país e sua gente. Beijos.

    Beto

  2. tati miranda
    Postado em 10/20/2011 às 19:16 | Permalink

    uau q praia linda!!! que chique, betinho no jornal!!! é isso aí amigo guerreiro, sucesso e muita luz!!!!

  3. Lud
    Postado em 10/30/2011 às 23:40 | Permalink

    Pelo visto vcs estao ficando famosos por ai…rsrsrsrs
    Eh excelente ver q vc esta aberto as oportunidades q te aparecem pela frente, com isso, vc o tem a ganhar mais experiencia com a vida e com o tempo q vc esta passando ai.
    Espero q outras oportunidades aparecao no seu caminho pra lhe trazer mais possibilidades pra explorar o pais e a cultura. Show de bola!

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