Minha Índia

Após a inauguração de Dharavi, me restava apenas uma semana e meia na Índia. Walter estava ocupado na nova clínica e com ele, Satish, Sashi, Geeta e Pooja. Na clínica de Vijay Nagar, em Bandra, eu e Megna tocávamos o barco. Ao contrário das primeiras semanas, já me sentia completamente à vontade. Conhecia a maioria dos pacientes pelo nome e conseguia me virar sozinho com alguns usando a mistura de hindi e marathi que aprendi.

Depois de quase três meses trabalhando nas favelas indianas, conhecendo seus problemas, seus moradores, já me sentia parte de tudo aquilo. Passei a circular por Mumbai com tranquilidade e a autoridade de quem sabe aonde vai, e a cidade que antes me assustava pelo caos e pela pobreza passou a me encantar pela beleza de seus pequenos detalhes. O cotidiano indiano, o ritmo frenético que a cidade tem contrasta com o jeito afável de seus habitantes, e é algo ainda me intriga, mas julgo ser fundamental para o funcionamento de uma megalópole como Bombaim. Era sempre muito bem tratado pelos curiosos indianos e ao cumprimentá-los e conversar um pouco em hindi/marathi eu conquistava sua admiração.

Na favela de Vijay Nagar esse respeito era ampliado. Todos sabiam por que eu estava ali. Me comprimentavam na rua, ganhava quitutes de vizinhos e sempre era abordado para uma conversa. Tentava retribuir com atenção, com apreço e com um sorriso quase que onipresente estampado no rosto. Eu estava muito feliz de estar lá. Propus-me a fazer um trabalho, aceitei um desafio e, chegando ao seu fim, havia cumprido meu papel. Tivemos bons resultados com os pacientes, pude passar aos colegas indianos minha experiência e fizemos um intercâmbio de cultura, de medicina chinesa e alegria. Meus pacientes já haviam se acostumado comigo. Estabelecemos uma relação de confiança que foi conquistada por bons resultados. Queriam que eu ficasse e eu confesso que deixei uma parte de meu coração com eles. Eu tenho um enorme respeito pelos pacientes e sou enormemente grato por receber sua confiança, por colocarem em minhas mãos sua saúde e fazerem de mim um instrumento de propagação da ciência que amo. Poder aliviar suas mazelas e contribuir para que haja uma melhora em suas vidas é um privilégio que me foi por eles concedido. E são os pacientes a razão de tudo isso. De viajar meio mundo em busca de algo que não sabia o que era, de me expor perante a novos colegas, de buscar o melhor tratamento, das horas suadas de trabalho e por todo o esforço.

E valeu a pena. Porque quando vejo um paciente como Badrudin chegando à clínica, com largo sorriso e fazendo piadas, me lembro de quando o vi pela primeira vez, com dores no joelho, sem trabalhar há 8 meses devido à perda de força. Agora, estava novamente forte, havia retomado o trabalho em meio período e quando perguntado sobre seu estado a resposta vinha em confiante inglês: “ First class!”. E houve outros, como Prakash, que agora estava sem dores na coluna. Como Leena, sempre a primeira a chegar à clínica e que havia melhorado das dores nas articulações por artrite reumatóide. São Rameshs, Santoshs, Philomenas, Shabunas. São pessoas que tem na Barefoot Acupuncturists a única forma de alívio. Que já passaram por vários outros tratamentos e finalmente encontravam resultado. Ser para essas pessoas referência já justifica todo o esforço.

Na clínica da Estação de trem de Bandra há um grande contraste. Ao contrário da novíssima e linda clínica de Dharavi e da também arrumada clínica de Vijay Nagar, é suja, sem água e pequena. É localizada em uma espécie de centro comunitário que recebe uma escola pelas manhãs e serve de local de velório para a comunidade. A maior parte da população ali é mulçumana e recebemos mulheres de burca, a vestimenta negra que cobre todo o corpo e rosto das mulheres islâmicas. No ínicio fui recebido com desconfiança, mas, ao final, era festejado por todas. As mulheres, que inicialmente recusavam ser atendidas por homens, ao final desvelavam por baixo da pesada veste negra trajes coloridos e sorrisos doces.

Minha experiência na Índia chega ao fim, mas serei eternamente marcado por ela. Pela cultura, pelas barreiras e pelas conquistas. Pelo trabalho de lutar por uma assistência médica de qualidade e disseminar o acesso da acupuntura à população mais necessitada. Carrego comigo essa responsabilidade, essa vivência. E serei sempre um acupunturista descalço. Um dia retornarei e espero poder contribuir ainda mais com essa organização fantástica que me orgulho de fazer parte.

4 Comentárioa

  1. Mayra Nakagawa
    Postado em 02/10/2012 às 22:21 | Permalink

    Lindo relato! Parabéns! A cada dia que passa tenho mais certeza de que a acupuntura é o meu caminho, enquanto estudo, quando converso com as pessoas e quando tenho a oportunidade de conhecer histórias como essa!

  2. celso ferreira
    Postado em 02/11/2012 às 10:40 | Permalink

    Betinho, como disse seu pai em um comentário antigo: vc. está tendo uma oportunidade rara, que, muito poucos profissionais, têm: aproveite bastante e prossiga com seus comentários: vc. ainda vira um escritor de mão cheia, bjos Cinho

  3. luisa
    Postado em 04/16/2012 às 16:37 | Permalink

    Nooooossa, foi Deus que colocou esse site diante de mim. Sou terapeuta e profa. aposentada, e tenho buscado contribuir pra uma população menos explorada.Expansão da acupuntura,pois, acredito,muito nessa forma de tratamento para finalmente ou iniciar,o que sonhamos com saúde digna para os excluidos. Parabenizo-o . Muito me fez crescer a sua postura diante da saude, e seu exemplo.Estou de mudança e escolhi Minas ,mais uma escolha certa.Onde ainda tem quem sensibiliza-se com os irmãos.obrigado

  4. Postado em 04/26/2012 às 12:58 | Permalink

    Obrigado pelas palavras. Grande abraço.

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