Expresso para Datong*

Já no metrô, conferi o horário da passagem de trem. Estava marcada para 8 e 40, e não 8 e 20 da noite, como havia imaginado. Saí com antecedência e isso me concedia ainda mais tempo antes da partida. Havia sido um dia bastante corrido e ironicamente , consegui relaxar no metrô lotado na hora do rush.

 

Cheguei a enorme estação de trem sul de Pequim, que impressiona pelo tamanho – parece um aeroporto. Dirigi à praça de alimentação e pedi um kaifan de porco, ou simplesmente porco sobre arroz. A garçonete insistiu para que eu bebesse cerveja, mas recusei, dando preferência a um chá gelado. O prato chegou rapidamente, porém, sem a qualidade dos pequenos restaurantes dos hutongs. Comi sem pressa e cheguei a vagão apenas cinco minutos antes da partida do trem.

 

Foi como entrar em uma feira livre. Pessoas em pé, adultos se amontoando com crianças e muita conversa. Minha presença não passou desapercebida. Me olhavam com curiosidade e sorriam ao meu cumprimento. Os chineses não têm qualquer pudor em encarar diretamente as pessoas e minha resposta a isso é sempre um Ni hao (olá), que é recebido geralmente com um sorriso e um alô de retorno. Nesses casos, me perguntam de onde sou, há quanto tempo estou aqui e o que faço. Nesse momento sempre elogiam meu mandarim e ironicamente, é aí que a conversa acaba.

 

As crianças tem uma curiosidade especial e me olham, ora com sorrisos, ora com medo. Brinco e mostro a língua, seus país sorriem e encorajam a interação.

 

O trem era velho e o vagão possuía poltronas de dois e três lugares de assentos duros e não reclináveis separados por uma mesa de lanche.

 

No desconforto, o trem parte e também o vagão se movimenta. Passageiros transitam por entre os carros em busca de um melhor assento. Alguns se acumulam nas extremidades dos vagões para fumar – o cigarro é proibido, mas isso não é nenhum impedimento, nem motivo de preocupação ou incômodo. Nessa mesma área, uns se sentam de cócoras, jogam cartas e bebem cerveja. Nesse mesmo local, há duas pias e um banheiro.

 

Sempre me impressiono com a capacidade chinesa de cochilar. Já havia notado isso no metrô, nas lojas, em ônibus, mas o ápice foi uma mulher cochilando em cima da pia e ainda de cócoras, sem apoio! O tempo passa, o trem segue lento, e aos poucos os passageiros são tomados pelo sono. O silêncio é interrompido de tempos em tempos por um funcionário da companhia de trem que passa aos gritos vendendo frutas, bebidas e lanches.

 

Tento me esforçar para dormir, mas o desconforto fala mais alto. As luzes estão sempre acesas e leio Fausto, de Goethe. De estação em estação, o trem pára, novos passageiros entram e a ação recomeça. Por fim adormeço e e chego em Datong às duas da manhã. Vou para o hotel e me preparo para a aventura sem fim que é viajar pelo interior chinês.

 

* Esse é o primeiro de uma série de posts sobre minha viagem a Datong e Wutaishan.

 

6 Comentárioa

  1. Mariana
    Postado em 09/12/2011 às 09:38 | Permalink

    Adoro suas historias!
    Bjs saudosos!

  2. tati
    Postado em 09/12/2011 às 11:41 | Permalink

    ahhh q delicia! Conta mais… ! bjo

  3. Claudio Ferreira
    Postado em 09/14/2011 às 17:57 | Permalink

    Betinho,
    já ouvi dizer que nos trens no interior da China, os “banheiros” são cubículos com um buraco no meio. A chinesada entra e faz (ou deixa cair) nos trilhos. É isto mesmo?

    Grande abraço.

  4. Postado em 09/18/2011 às 03:22 | Permalink

    Na verdade não, Claudio. Eles tem a privada de chão, mas é uma privada de verdade. Eu já vi algo parecido com isso no nosso trem Vitória-Minas, onde há uns 15 anos atrás, existia a privada e não havia encanamento, com os excrementos indo para o trilho mesmo…

  5. Celso ferreira
    Postado em 09/17/2011 às 11:51 | Permalink

    Betinho,vc. como sempre, me surpreendendo: nunca poderia imaginar que fosse lesse Goethe, Bjos do tio, Celso

  6. Postado em 09/18/2011 às 03:23 | Permalink

    Tem horas que precisamos relaxar a mente né, tio. Não dá pra ficar somente nos livros texto de acupuntura. Bjos, Betinho.

Comente

Seu email NÃO será compartilhado. Campos obrigatórios *