Centenas de Celebrações


De todas as pessoas que encontramos em determinada jornada, algumas se destacam. Seja pela empatia, pelo exemplo, pela relação construída ou pelo conhecimento compartilhado.

Em Tianjin tive o prazer de conhecer o Dr Yu Zhenji, um acupunturista brilhante, dos mais versáteis que já vi. Foi um dos primeiros acupunturistas de Tianjin que tive a oportunidade de acompanhar.

Do alto de seus cinquenta e oito anos, Dr Yu toca seu ambulatório com incrível tranquilidade e competência. Desde o primeiro dia, me recebeu de braços abertos e respondia sempre com paciência as inúmeras perguntas do recém chegado colega brasileiro.

Dr Yu é simplesmente o professor que eu buscava. Como havia acabado de chegar da Índia e ainda procurando muitas soluções para os pacientes neurológicos que lá encontrei, minha cabeça fervilhava. E aos poucos, demonstrando com sua prática, seus quase sessenta pacientes por dia e respondendo com cuidado cada pergunta, essas questões foram encontrando respostas.

Dr Yu é um dos acupunturistas chineses mais simpáticos que já conheci. Discute política, fala sobre o mercado de capitais e sobre o clima. Seus pacientes se amontoam em frente ao pequeno ambulatório e chegam calmamente esperando sua vez. Além da conversa frugal que engaja aos seus pacientes, transpira Medicina Chinesa. Cultiva com carinho suas plantas ao fundo da sala. Não termina o trabalho um dia sequer sem a visita da esposa e nunca se separa da caneca de chá.

Sempre recebeu bem tentativas de desenvolver meu mandarim e me responde com fala mansa, clara e lenta. Utiliza vocabulários simples para discorrer sobre temas complexos, para que eu possa entender em sua língua materna.

Ainda me lembro dos primeiros dias ao seu lado e ver ao lado de tão grande figura quão longo é o caminho que tenho que percorrer. Suas respostas são sempre muito embasadas, com uma clareza teórica e aplicabilidade prática que raramente encontrei.

Além disso, Dr Yu tem o mérito de me conceder a alcunha pela qual sou conhecido por todos em Tianjin. Os chineses tem alguma dificuldade com nomes ocidentais e é normal adotarmos um nome chinês ou uma espécie de correlação fonética do nome original, com ideogramas chineses. Na minha primeira viagem à China, em 2009, fui batizado de Fu Zhen, pelo também brilhante Dr Chen. Ele me batizou “O agulha de Mianyang” ou Fu Zhen. A parede do meu consultório ainda ostenta o título, presenteado por um calígrafo da cidade.

Porém, ao retornar em 2011, não levei os ideogramas originais, anotados em um pequeno caderno amarelo, que descansa tranquilamente em alguma caixa bem guardada no meu armário no Brasil. Tentei em vão descobrir o ideograma original e não consegui. Recorri ao Dr Yu, para que pudesse me rebatizar, mas resguardando semelhança com Betinho, que soa mais fácil e natural para os chineses do que Alberto, ainda mais no nosso mais carregado sotaque mineiro.

Dr Yu então em me batizou como Bai Qing (lê-se bétchin) ??, ou Centenas de Celebrações e justificou – “Você é uma pessoa sempre alegre, de um país alegre e festeiro. Além disso é acupunturista e cada ato que faz, cada pessoa que trata, é uma celebração.”

Eu confesso que fiquei feliz e emocionado. O nome, além de bonito e sonoro, é um mantra, uma meta, uma busca. De se transformar de fato cada ato em uma celebração, de cada momento um presente e da vida uma festa.

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